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O TRUCO É O JOGO DO DIABO. um conto de ROGER BAIGORRRA MACHADO

Observando fixamente um quadro na parede, ele bebia um copo de canha com butiá, sentado num banco, bem do lado do balcão do bolicho. Acomodou o palheiro no canto da boca, a ponta quase apagada. Quieto, tinha o olhar perdido para uma imagem da Santa Ceia. Aos 45 anos, sentia-se envelhecido pela solidão. Naquela noite lhe restava somente o silêncio e um baralho por companheiros. 

Chamavam-no de Pedro Calavera. Nasceu na beira do rio. Isaltina, sua mãe, contava que ele saiu do ventre bem na costa do Ibicuí.

Caiu do ventre já dentro da água e foi puxado, feito um peixe fisgado, pelo cordão umbilical.

Isaltina era uma lavadeira de corpo magro e rosto guarani, viveu a vida e a morte na beira do rio. Uma pobre mulher que fora estuprada, arrastada pelos cabelos e assassinada por um bandido castelhano, foragido de Corrientes. O corpo de Isaltina só foi encontrado dois dias depois. Foi achado pelo marido e os três filhos, estava coberto por galhos, num capão de mato costeiro.

Da mãe, Pedro carregava uma ausência sempre presente. Inexplicável. Como se ela, mesmo morta, resistisse nele, vivendo em silêncios e revivendo nos sonhos. Sempre num flagelo daquilo que nunca existiu. A mãe e o filho. Juntos de mãos dadas numa vida que nunca viveram. 

Na memória, Pedro guardava da mãe uns cheiros e umas canções que ela cantava ao lavar roupas ou na hora de ir dormir. Mas ele tinha uma lembrança clara: o brilho dos seus olhos maternais, tristes e amendoados. Um olhar que contemplava ao final do dia, em silêncio e corpo cansado, o movimento do rio calmo. A mãe era um vulto em cada pensamento, e dela, é claro, ele guardava a história do próprio nascimento. 

Após a mãe ter sido morta, sua irmã mais velha foi levada por um tio para morar em Itaqui, na casa de uma madrinha. Casou-se e em seguida foi morar no interior de São Francisco. A irmã do meio, que tinha doze anos, foi parar na casa de uma família rica que residia em Uruguaiana, para estudar e trabalhar na casa. Mas ela nunca estudou, apenas trabalhou bastante. O pai de Pedro, um ex-peão posteiro, depois de dar todos os filhos, arrumou uma nova mulher e foi morar no Passo da Cruz.

Das coisas do início da vida, Pedro lembra uns pedaços. Recortes de quando ele tinha menos de cinco anos. Depois, ele lembrava apenas que foi criado pela tia Diamantina. 

A tia era uma benzedeira que morava na beira do Touro Passo e tinha outros quatro filhos, todos mais velhos que o pequeno órfão recém chegado. Pedro foi deixado na porta do rancho de barro, seu pai nem desceu do cavalo. Despediu-se com um acenar de cabeça, largou-o aos cuidados da cunhada. Parado na entrada do rancho, Pedro ficou de pés descalços, vestindo sua única muda de roupas e trajando um olhar de medo que só usaria novamente aos 45 anos. Diamantina, pegou-o pela mão e não lhe disse nada, apenas o levou para dentro de casa. Menino, ele aprendeu que a vida era um jogo difícil, ao menos, até aquele momento. A sua curta vida já era um jogo feito com mais derrotas do que vitórias. 

Foi na casa de Diamantina que ele aprendeu também as diferentes formas de tratar as cartas que a vida distribuía. Primeiro, compreendendo qual era o seu lugar e as suas obrigações na nova família: dormir no chão do quarto da tia, cortar lenha, alimentar as galinhas, colher guanxuma e buscar água no poço. Depois, aprendendo que a vida também podia ser divertida, jogando o rouba-montes com as primas, num baralho feito do resto de vários outros baralhos. Sentavam-se os três na sombra do salso chorão, ao lado do poço d’água. Pedro e as primas passavam tardes inteiras entre risos e partidas com as cartas surradas. 

Numa tarde cinza de um inverno frio e chuvoso, trancados dentro do rancho de pau-à-pique, ouviram batidas na porta da cozinha. Era o Seu Nicolau Azevedo, um estancieiro que tinha conquistado a posse do campo onde a casa de Diamantina ficava. O velho Nicolau apareceu no meio da tarde. Chegou acompanhado por uma chuva mansa, vindo da estância, para que a benzedeira “costurasse” o pulso do filho, o menino Francisco. O pulso, dolorido e inchado, estava aberto havia dois dias. Entraram os dois, Diamantina pediu que esperassem na cozinha que ela já os atenderia. O menino se sentou ao lado do fogão a lenha, observado pelo olhar curioso de Pedro, afinal, raramente ele ficava diante de uma criança também da sua idade. 

Diamantina veio e colocou sobre a mesa da cozinha um ovo, um pequeno crucifixo, uma linha branca, uma agulha e um ramo de arruda. Depois de fazer uma oração, ela fez a costura: passando a agulha com a linha por cima e por baixo do pulso, sempre em sinal de cruz. No fim, quebrou o ovo e pegou a clara, com ela, fez uma massagem na região inchada e terminou a benzedura com mais nove orações. Na hora de ir embora, o Seu Nicolau agradeceu a benzedeira, dando à ela uma quantia em dinheiro. Depois, ele chamou Pedro na porta do rancho e retirou do bolso um baralho espanhol. Embora fosse um baralho usado, parecia como se fosse novo, além disso, ele tinha todas as 48 cartas. Foi o primeiro presente que Pedro ganhou na vida.

Não demorou um ano e o rouba-montes virou um jogo ultrapassado. Pedro e os primos já tinham se entediado e desistido de ficar empilhando cartas do mesmo naipe. Em busca de um jogo mais divertido, eles já tinham passado pela botifarra, pela escova, pela ronda e, por fim, detiveram-se no jogo da mentira: o truco. Na verdade, foi Pedro que não conseguia jogar outra coisa que não fosse truco. Ele estava encantado pelas inúmeras possibilidades que o jogo lhe proporcionava, as diferentes regras e, principalmente, com o blefe.  Mas  as primas e os primos nem sempre podiam ficar as tardes jogando, pois os rapazes trabalhavam e as meninas já estavam noivas e também tinham suas obrigações. Nessas vezes, em que Pedro não tinha com quem jogar, ele ficava jogando sozinho. Sentava-se na mesa da cozinha e criava adversários imaginários. Enfrentava-os em vitórias impossíveis. Pedro embaralhava e distribuía as cartas centenas de vezes. Brincava de escolher quais daria para cada adversário ou amigo, que imaginava sentados ao redor da mesa velha de madeira. Quando os primos estavam em casa, sempre os desafiava para uma partida de truco. Jogava valendo fatias de pão caseiro com chimia ou a responsabilidade de alguns afazeres domésticos. Por conta das vitórias, Pedro quase nunca tinha de dar milho para as galinhas ou ir ao poço buscar água, pois sempre havia alguém lhe devendo algo. 

Sem perceber, Pedro havia se tornado um exímio jogador de baralho, em especial, de truco. Ele vencia, não importava a quantidade de jogadores, fosse de mano ou de dupla e, às vezes, de trio, que era quando a tia Diamantina se propunha a jogar com os filhos e o sobrinho. Uma vez, jogando de carancho contra a tia e uma prima, depois de oito derrotas seguidas para Pedro, a tia Diamantina saiu da mesa brava e disse que nunca mais iria jogar truco, pois o “truco era o jogo do diabo!”. E nunca mais jogou.

E com o tempo Pedro se tornou capaz de, ao distribuir o baralho, realmente saber exatamente quais as cartas que os oponentes tinham nas mãos, senão pelas marcas invisíveis que fazia nelas, também pelo embaralhar das próprias cartas, que era feito tão rapidamente e de tantas formas diferentes que era impossível para os oponentes descobrirem a sua técnica. Os primos e primas foram se cansando de perder e muitas vezes não queriam jogar com o menino. De vez em quando, um primo ou prima, quando retornavam de Uruguaiana ou de Itaqui, traziam um baralho novo para que jogassem, na esperança de que, sem um baralho marcado, fosse mais fácil vencê-lo. Mas era em vão.

Quando a tia Diamantina morreu, em um dezembro quente de 1891, Pedro tinha 14 anos. As duas primas e os dois primos, que já tinham se casado, já não moravam mais em casas próximas ao rancho. As meninas estavam em Uruguaiana e os primos tinham ido para o Plano Alto. As primas até tentaram levá-lo para morar com elas, mas Pedro não quis. Preferia ficar na casa da tia, ali ele se sentia bem, sentia-se protegido. Às vezes, ele ficava sem ver os primos por semanas. Sem trabalho e sem dinheiro, Pedro jogava de carancho contra a vida e a solidão do tempo, oponentes difíceis. 

Na primeira rodada, viveu por dois meses com aquilo que os primos e o Seu Nicolau tinham trazido, arroz, farinha de mandioca e feijão. Depois, sobreviveu mais umas semanas comendo as cinco galinhas que a tia criava. Ficou sem ovos. Sem nada no galinheiro ou outra fonte de alimentação, precisou buscar novas cartas. Passou, então, a procurar comida de várias maneiras diferentes. Sempre que podia, ele pescava lambaris e traíras no Touro Passo. No meio da tarde, saia com os cachorros para caçar preás perto dos trilhos do trem. À noite, procurava por tatus e mulitas num campo que ficava do outro lado da coxilha do Seu Antão. Na costa do rio, caminhava por horas, colhendo maracujás, taleras e bananas do mato. Conseguiu encontrar uma forma de sobreviver. Mas o problema é que ele queria viver.

A dieta pobre, baseada na proteína de caças, e a solidão do rancho fizeram com que Pedro, numa tarde de maio, decidisse embaralhar a vida noutra direção. Então ele pegou um baralho e caminhou por quase duas horas até a vila de São Marcos. Lá, ele foi até o bolicho do Zé Quintino. 

São Marcos era uma vila à beira do rio Uruguai, e o bolicho do Zé Quintino, a maior venda do lugar. Um estabelecimento que era frequentado pelos moradores locais e também por dois italianos gritões, homens de olhos claros que vieram trabalhar nos trilhos do trem e acabaram se aquerenciando por ali mesmo. Chamavam-se Amadeo Greco e Giuliano Mazzini. 

Pouco tempo depois de sua chegada, os italianos se casaram. Depois de um baile no Aferidor, os dois se enrabicharam pelas filhas da Dona Lucrécia, uma viúva que morava na entrada do brete que levava até a vila de São Marcos. 

Os italianos viviam fazendo negócios de todo tipo: compravam e vendiam animais, negociavam serviços de cutelaria e, principalmente, passavam muito tempo bebendo no Zé Quintino. Amadeu lidava com ferro, trabalhava fazendo facas, freios e estribos, de vez em quando, fazia cruzes para os túmulos dos mortos das famílias mais abastadas.  Giuliano, com o dinheiro que ganhou dos ingleses, lá no tempo em que trabalhou na ponte do Ibicuí, comprou 10 hectares de terra e virou criador de ovelhas, porcos e de galinhas. 

Pedro chegou ao bolicho cansado, pediu um pouco de água para o Zé Quintino e se sentou num banco do lado de fora, à sombra de um cinamomo. Retirou do bolso um baralho espanhol e ficou separando as cartas por naipe sobre o banco. Amadeo, que estava debruçado no balcão, viu o menino sentado do lado de fora e num português carregado de sotaque, disse: “Ragazzo, questo baralho é brinquedo o tu sai jogá alguma cosa, eh?”.

Em poucos minutos lá estavam eles, Pedro de um lado e Amadeo do outro. Sentados na sombra do cinamomo, cada um com três cartas nas mãos, jogando o mais incrível dos jogos: o truco. Marcando os pontos com as frutinhas secas da árvore, Amadeu venceu facilmente as três primeiras partidas. E venceu bem: Nove a dois. Nove a três. E nove a quatro. O italiano pediu ao Zé Quintino dois ovos cozidos e um martelo de canha, ele sorria, embebido pelas vitórias, em seguida, quis saber o que o menino fazia ali? Pedro, de cabeça baixa embaralhando as cartas, respondeu que tinha vindo comprar comida, charque, arroz e feijão, mas que isso não importava. A única coisa que importava era que ele não tinha gostado das derrotas. O menino colocou o baralho sobre o banco e disse que adoraria apostar o valor que trouxe no bolso, numa última partida de truco. Amadeu, empolgado com a facilidade que havia vencido o jovem, aceitou.

Apostaram cinquenta réis, Zé Quintino, parado na porta, serviu de testemunha. Pedro pegou as cartas, embaralhou-as e as colocou diante do italiano. Amadeu cortou bem no meio e viu o jovem rapidamente fazer a distribuição. Amadeu saiu com um dois de copas, um rei de ouro e um três de bastos. Empolgado pelas vitórias, o italiano jogou o três de bastos na mesa e gritou “Truco, faccia di culo!”.

– Esqueceu do envido? – perguntou o menino.

– Non. Non voglio. Respondeu seco, o italiano.

– E o retruco? – Perguntou, Pedro. Amadeu deu uma olhada para o Zé Quintino e, demonstrando a certeza da vitória, disse:

– Voglio!

Pedro matou o três de bastos com o ás de espadas e na sequência jogou um quatro de copas. O italiano abriu um sorriso.

– Voglio vale quatro, ragazzo di merda!

– Quero. Disse Pedro, sem nenhuma expressão no rosto.

Pedro viu Amadeu matar o quatro com um rei de ouro e jogar junto com ele o dois de copas. O italiano disse para o bolicheiro que iria tomar de canha todos os cinquenta réis que ganharia daquele ragazzo. Logo em seguida, o italiano mudou a expressão do rosto, ficou sério. Ele viu Pedro jogar um sete de espadas e o ás de bastos. Na primeira rodada o “ragazzo” tinha feito 5×0. 

Na segunda rodada da partida, Amadeu botou o envido, mas Pedro cantou flor. 8×0. O italiano, incrédulo, viu o jovem ganhar o jogo, novamente com o ás de bastos e o ás de espadas nas mãos. Rindo, Amadeu meteu a mão no bolso e jogou as moedas sobre o banco e disse:

– Beh, ragazzo, el primo milho é pros pinto. –  Em seguida, o italiano disse que queria jogar novamente. 

Pedro aceitou a revanche, jogaram valendo mais cinquenta contos. Depois, Pedro aceitou a revanche da revanche. Jogaram várias partidas, Pedro foi vencendo. A cada nova derrota do italiano, foram aumentando as apostas. Depois, o menino aceitou jogar a negra, depois a última partida e nada do italiano vencer, nisso, cada partida já era disputada valendo mil réis. 

Vendo que seu adversário começava a demonstrar irritação com as derrotas, o jovem Pedro apostou tudo que já tinha ganho do italiano. Colocou todas as moedas sobre o banco, dizendo que essa era a chance de Amadeu recuperar tudo aquilo que tinha perdido. Amadeu foi em casa e voltou com mais dinheiro. 

O sol já começava à se esconder no horizonte. Pedro tinha vencido novamente. Naquele dia, Pedro voltou para casa caminhando no escuro, com arroz, feijão, uma galinha e um saco de fumo. No bolso, trazia cinquenta mil e quinhentos réis, dinheiro que ganhou do Amadeu. Numa época em que o salário médio em São Marcos era algo em torno de quarenta mil réis por mês, a tarde de truco de Pedro havia sido muito exitosa.

Depois da primeira partida e do lucro que ela proporcionou, o menino se despediu da pesca e da caça, dando adeus também à fome. Assim, Pedro passou a ir semanalmente para São Marcos. E as partidas foram se repetindo, às vezes no Zé Quintino, outras vezes, nas tascas e nos galpões das estâncias que se erguiam pelo caminho. 

Pedro, que começara a jogar truco por sobrevivência, agora jogava como modo de vida. Com o passar dos meses, as vitórias foram aumentando, assim como, o valor de suas apostas. E teve um dia em que Pedro apostou nas cartas até o rancho em que morava. Pela primeira vez, ele colocou em jogo a sua própria casa. E foi contra o Mazzini, o outro italiano da vila. Apostados na mesa do truco, de um lado o rancho, do outro, um pedaço de campo da chácara do Mazzini, que sabendo que o amigo Amadeu tinha perdido novamente muitos contos para o guri, resolveu tentar vingá-lo. E tal qual Amadeu, Mazzini também perdeu. E ao ver a derrota, o italiano sacou um revólver da cintura, mas foi prontamente repreendido pelo Zé Quintino. O dono do bolicho lhe disse que homem que é “homem não chia e nem chora, paga o que aposta, mesmo que isso lhe custe tudo, menos a honra”.

Ao perder um hectare de campo de sua chácara, Giuliano Mazzini, vendo que não poderia se negar a aceitar o resultado, pediu uma revanche. Pedro aceitou. Ele apostou novamente o rancho da tia Diamantina e também o campo que tinha acabado de ganhar, ambos, pela casa da sogra do Mazzini, que havia morrido já fazia um ano. O italiano aceitou. Zé Quintino, antes da partida iniciar, lembrou Mazzini de que não aceitaria em seu bolicho a falta de honradez. Pedro, ganhou. E foi cantando uma flor na última rodada. Pedro agora era dono de uma casa e de uma fração de campo.

Com Francisco, o filho do Seu Nicolau, de quem Pedro ganhou seu primeiro baralho, ele apostou o pedaço de campo que tinha ganho do Mazzini e a casa da vila, os dois por uma fração de campo da estância. Um pedaço de dez hectares, exatamente no lugar onde ficava o rancho da tia Diamantina. Ganhou novamente. E por insistência de Francisco, o menino deu a revanche e apostou tudo que tinha, por mais uma parte do campo da estância. E assim ele foi apostando. Não só ganhou o campo onde ficava o rancho, mas a metade da estância do finado Nicolau. Francisco, levantou-se furioso da mesa de truco, sendo observado por uma dezena de peões que se amontoavam no bolicho do Zé Quintino. No dia seguinte, pegou um trole na direção da cidade e foi ao cartório fazer a transferência. 

No outono de 1905, Pedro estava num rodeio de uma estância no Itapororó, um lugar entre Alegrete e Uruguaiana. Ele tinha ido ver um gado que queria comprar. Naquela noite, depois de um baile, convidou o dono da estância para um carteado. Por sorte ou acaso, sua fama era desconhecida naquelas bandas. 

De saída, ele deixou o anfitrião vencer cinco partidas em sequência, então, ele foi apostando moedas, depois, foi apostando alguns mil réis e foi perdendo de propósito. Até que num momento, fingindo raiva, apostou tudo o que tinha, casas, frações de campos, a metade da estância perto do Touro Passo, rebanhos de animais.

Apostaria tudo, desde que o oponente aceitasse jogar valendo a metade de uma de suas estâncias. O anfitrião aceitou a aposta. Pedro, venceu. 

As vitórias foram se sucedendo. Pedro jogou truco por horas, enfrentou estancieiros, coronéis, velhos caudilhos e os filhos dos caudilhos. Os oponentes se revezavam na sua frente, gente tão rica que não ligava em perder dinheiro, terras ou casas, especialmente, quando o próprio ego estava em jogo. Pedro ganhou duas estâncias, que lhe foram entregues de porteiras fechadas, móveis, animais e até trabalhadores. Propriedades que compreendiam várias quadras de campo entre Uruguaiana e Alegrete. 

Pedro Calavera, o guri nascido na costa do Ibicuí, o órfão criado na beira do Touro Passo, agora era um estancieiro. 

Aos quarenta anos, Pedro estava muito rico. Enfim, depois de tanto vencer nas mesas de truco, resolveu sossegar e abandonar o carteado. “Chega de riscos e de ameaças”, pensava Pedro. Com a idade, havia se transformado num homem que queria as certezas que a vida poderia lhe dar. 

Resolvido diante do futuro, casou-se com a linda filha de um rico coronel maragato que tinha propriedades em São Borja. Mas Pedro não quis morar perto do sogro, preferiu voltar ao passado, para suas origens. Decidiu ir morar na estância do finado Nicolau, lá na beira do Touro Passo. Na propriedade que agora já era integralmente sua. Alguns anos antes, Pedro comprou a outra metade da estância. Fez negócio com Francisco, o filho do velho Nicolau, que pegou o dinheiro e se mudou para Uruguaiana. 

O primeiro filho de Pedro nasceu em seguida, sequer tinham um ano de casados. Um menino lindo, ganhou o nome de Theodoro. Quando Pedro o pegou no colo pela primeira vez, viu no olhar da criança o brilho dos olhos da própria mãe, quando ela lavava roupas na beira do rio. Viu o sorriso da tia Diamantina. A criança era o maior presente que ele tinha ganho na vida. 

Dois anos depois, nasceu Isaltina, a filha mais nova. Ela recebeu o nome como homenagem para a finada mãe de Pedro.

Aos cinco anos, no meio de um inverno terrivelmente frio, Theodoro adoeceu. Tosses, dores no corpo e muita febre. Quando respirava, seu peito se afundava, tamanha a força que fazia para encher os pulmões com ar. O menino sofria a cada vez em que tentava respirar. Seus lábios e sua pele, roxos, eram o sinal de que havia algo de muito ruim com a criança. 

O melhor médico foi chamado, veio de Itaqui de trem. Ele disse para Pedro e sua esposa que o menino estava com uma infecção respiratória muito grave. Uma pneumonia que ele, enquanto médico muito experiente, jamais tinha visto. E que, diante de quadro tão sensível, talvez, não houvesse muito o que fazer. Certamente, a criança não chegaria ao amanhecer.

Ao entardecer, Pedro saiu de casa. A dor de saber que o filho estava morrendo e que ele, mesmo possuindo tanto dinheiro e muitas quadras de terras, não poderia fazer nada, era um sentimento insuportável. Inquieto, ele encilhou um gateado e foi até o bolicho do seu amigo Zé Quintino, que ficava a pouco mais de meia hora de distância. 

No bolicho, chegou silencioso e ficou sentado ao lado do balcão. Não havia nenhum cliente, apenas Pedro. Ele contou da doença do filho para o velho Quintino, que se acomodou numa cadeira coberta por um pelego de ovelha. Pedro recebeu umas palavras amigas e um copo de canha com butiá. O bolicheiro se levantou e foi ao interior da casa e voltou com algo enrolado num pano. Era um baralho de truco. Ele o colocou na frente de Pedro. 

– Toma, esse baralho é teu. Teve uma vez tu ganhaste uma partida do Mazzini, ali, naquele banco. E se eu não me engano, a aposta era a casa da sogra dele. Depois do jogo, o baralho ficou aqui. – Disse o velho, com os olhos brilhantes diante de uma memória que se transformou numa história, contada e recontada tantas vezes ali, no balcão do bolicho. 

Pedro sorriu, pegou as cartas e lembrou do dia em que venceu o italiano. Em seguida, pediu palha e fumo para o Quintino. Fumou um palheiro e, entre um gole e outro de canha, ficou olhando para um quadro da Santa Ceia pendurado na parede. Um quadro velho e esverdeado do outro lado do balcão, jamais o havia notado. Notou que o velho Quintino deixou ao lado do baralho uma corrente.

Era um rosário. Afinal, Quintino sempre fora devoto da Virgem Maria, este era o jeito dele demonstrar apoio ao amigo. Guardou o rosário num bolso e o baralho noutro.

Pedro nunca tinha rezado. Mas ali, em pensamento, diante de Jesus e dos apóstolos, rezou do jeito dele. Disse-lhes que faria qualquer coisa, não importava o que fosse. Faria de tudo pela vida do filho. Apertando o rosário no bolso, pediu para Maria. Pediu para Deus. Ofereceu a própria vida em troca da vida menino. E que se Deus, Jesus, os apóstolos ou a Maria, quem quer que fosse, se aceitasse o acordo, que lhe desse um sinal. Qualquer sinal. Pedro esperou. Mas não veio sinal algum. Nem voz, nem vulto, luz ou som, nem raio ou trovão. Apenas o silêncio do bolicho vazio. Então, encheu mais um copo de canha, tomou um gole e mandou Deus e todos os seus à merda. 

– Que tipo de Deus mataria uma criança daquele jeito? – Pedro se questionava: “Eu faria qualquer coisa pela vida do meu filho”. Este foi seu último pensamento, antes de romper em definitivo com a sua curta tentativa de ter fé.

Às 23:30, Pedro montou em seu cavalo e retornou para casa. Ao passar perto do Touro Passo, avistou o rancho da tia Diamantina. A luz da lua cheia refletia no rio calmo. Galopou até o rancho, desceu, abriu com dificuldade a porta de madeira, que por conta dos anos estava um pouco emperrada. 

O rancho até que se apresentava bem conservado, Pedro nunca deixou ninguém morar nele, tão pouco desmanchá-lo. Encontrou na mesa da cozinha um velho candeeiro de sebo. Resolveu acendê-lo. E para sua surpresa, o candeeiro emitiu uma grande chama e a claridade da luz tomou conta de tudo, como se o fogo tivesse qualquer coisa de diferente, coisa de mágico, ou quem sabe, qualquer coisa fruto da canha com butiá. 

Andou pelo rancho, explorando as próprias memórias. Com a claridade do candeeiro, ele foi iluminando os três pequenos cômodos. Não havia muito dentro do velho rancho, além de uma mesa e dois bancos na peça da entrada. Na cozinha, o velho fogão à lenha. Lembrou dos primos e das primas, pensou com carinho na tia e na vida que teve ali. Foi quando Pedro percebeu que na porta do rancho, exatamente por onde havia entrado, estava um homem. Sem hesitar, puxou seu revólver da cintura e apontou para a figura que estava parada na entrada. 

– Quem és tu? Quem te deu permissão para andar nos meus campos? – Perguntou Pedro, desconfiado.

O homem vestia um pala negro e usava chapéu preto, parecido com uma cartola antiga. Olhou para Pedro sem demonstrar medo e, com um sorriso, respondeu:

– Calma, meu amigo. Abaixe sua arma. Embora eu goste delas, não vim  aqui participar de uma guerra. Vi a luz aqui no rancho e, como eu estava passando, resolvi chegar perto para ver do que se tratava. Afinal, esse rancho está abandonado há muitos anos. Deixe-me me apresentar: Meu nome é Louis Cifér. Já morei em muitos lugares, mudei-me há alguns anos para a África, depois, passei um tempo na França, andei pela Inglaterra e pelo Oriente. Gosto de viajar. Gosto de ir onde me chamam. E acredite, os homens me chamam muito. E fazem isso das mais diferentes maneiras. Mas por hoje, decidi que vou morar por aqui, não nesta casa. Mas mais para perto do cemitério da vila.

– Pois essas terras não são caminho para a vila. O que fazes aqui?

– Sim, tu tens razão. Não são. Mas como eu disse antes, apenas vi a luz e aproximei-me.

O homem não usava barba e nem bigode, tinha a pele do rosto lisa e branca. Seus olhos eram tão claros quanto os olhos dos italianos de São Marcos. Parecia ser uma pessoa de outro lugar. Tinha um falar diferente, um olhar curioso. Era agradável, mesmo quando calava, tinha sempre um leve sorriso por entre os lábios.

– Aqui fora está frio, você me permitiria entrar um pouco?

– Pois se o teu problema é o frio, então entre. – Pedro seguia com a arma em punho.

O homem se sentou num dos bancos e colocou a cartola sobre a mesa, ao lado do chapéu, Pedro viu um baralho espanhol. 

– Ouvi falar que você joga. É verdade, Pedro?

– Como tu sabes o meu nome? Indagou de forma ríspida o sobrinho da Diamantina.

– Eu sei muitos nomes. Na verdade, não quero aqui me vangloriar, mas eu sei todos os nomes.

– Pois eu já joguei. E joguei muito. Hoje não jogo mais.

– Pois é… eu fiquei sabendo que você parou de jogar. É uma pena. Eu também gosto de apostar. E também fiquei sabendo que o seu filho está doente. É verdade? Pobre Theozinho!

– Pelo jeito tu anda sabendo muito ao meu respeito. Sabes até o nome do meu filho.

– Eu sei de muitas coisas, Pedro. Sei que naquele canto do quarto, em cima de uns pelegos dobrados, era onde você dormia, enrolado num acolchoado azul feito de lã preta que a sua tia Diamantina costurou com dois lençóis velhos que ela tinha. Sei que na primeira noite que você dormiu aqui, você se urinou nas calças. 

– Como tu sabes disso?

– Simplesmente, sabendo. Sei também que o homem que matou sua mãe, morreu no ano seguinte, afogado no rio Uruguai, enrolado numa rede de pesca, inalou água e sentiu os pulmões queimarem de dor. Eu mesmo o busquei no fundo do rio. Sei que seu pai morreu com 75 anos. Durante os últimos minutos, pediu perdão por ter abandonado os filhos. Ele chorou sozinho, pobre coitado, feito uma criança. Ficou três horas preso numa cerca de arame farpado, num fundo de campo, até que o coração não aguentou. Chorou baixinho até não respirar mais. Eu sei que o teu primeiro baralho foi um presente do velho Nicolau. Aquele velho safado, chamou por mim até o último dia. Sei também que o Nicolau virou dono desta estância através de uma aposta feita numa cancha reta perto de Itaqui. O antigo dono da estância não aceitou a derrota e se negou a pagar, Nicolau o matou com um tiro nas costas. Sei que você achava uma das suas primas muito atraente. Você até já sonhou com ela. Nua. No rio. Acertei?

– Quem és tu?

– Já te disse. Chamam-me de Louis Cífer. Mas tem pessoas que me chamam por outros nomes. Os mais antigos me chamavam de Lúcifer, outros, chamavam-me de Diabo, até que eu gosto. Mas outros me chamam de Satanás, tem até quem me chame de Belzebu e Capeta. Eu, particularmente, prefiro que me chamem apenas de Louis. 

– Tu és o demônio?

– Pois saiba que deste tratamento, em especial, eu não gosto muito. Se puder evitá-lo, eu agradeço. Chame-me apenas de Louis, eu lhe peço. Eu prefiro, pois deixa nossa conversa mais informal. Mas diga-me, Pedro, e esta incansável casa? Noutros dias ela já esteve bem mais iluminada. Hoje está assim, tão escura. Você não acha?

Pedro puxou novamente o revólver da cintura e apontou para a cabeça do homem, que permanecia calmamente sentado. De repente, luzes, parecidas com velas, acenderam-se nos barrotes da sala e tudo ficou iluminado. Do nada, repentinamente, os três cômodos do rancho estavam iluminados por uma luz amarelada.

– Pedro, veja bem. Entre tantas as coisas que eu faço, hoje eu vim te trazer luz. Vim te ajudar. Para isso, eu gostaria de te fazer uma proposta. Posso? Abaixe essa arma. Vamos! Abaixe-a, afinal, ela não serve para nada mesmo. Vamos. Abaixe-a. Ou atire logo! 

– O amigo me perdoe, mas eu não tenho paciência para essa tua loucura toda e nem tenho cabeça pra negócios, ainda mais se for com o Diabo! – Pedro foi caminhando na direção da porta, ele seguia com o revólver apontado para o homem. – Eu vou sair desse rancho agora e vou para minha casa e tu vais ficar aqui.

– Espere! Ao menos ouça minha proposta, permita que eu a diga. Ouça ela, faça isso  antes de partir. Eu juro que você não vai se arrepender.

– Pois então fale, demônio! – Disse, Pedro, num misto de medo e raiva. O homem, ao ser chamado de demônio, fez cara de raiva, mas não disse nada.

Por algum motivo, e embora soubesse que tudo aquilo podia ser apenas a sua imaginação e a canha fazendo efeito, Pedro queria saber. Ele queria saber. Afinal, o que poderia o Diabo querer com ele? 

– Pois me ouça. E ouça com atenção. Eu posso devolver ao seu filho a saúde que a pneumonia está lhe tirando. Posso devolver ao seu filho a vida que a cada minuto abandona seu pequeno corpo. Para mim, é uma coisa muito fácil de fazer. Amanhã, e isso eu lhe garanto, posso colocá-lo em pé, como se nada tivesse acontecido. E digo mais, posso garantir que ele nunca mais fique doente novamente. 

– E por qual motivo farias isso?

– Ora, eu devolveria a vida ao seu filho em troca de um simples jogo, um carteado. Seu filho terá de volta a vida e a saúde, apenas para que eu possa jogar uma partida de um jogo que eu adoro, o truco. 

Pedro abaixou a arma e se aproximou da mesa. Olhando fixamente nos olhos do homem, por alguns instantes, os olhos que antes eram claros, quase verdes, ficaram negros. Nisso, a porta se fechou sozinha, lentamente. 

– Pois se tu vais devolver a saúde do meu filho, apenas por uma partida. Eu aceito jogar às brinca contigo. Mas apenas um vez.

– Tolo, não seja assim. Por favor, Pedro. Por quem me tomas? Eu só jogo às deveras. Não tenho paciência para jogos sem valor. Acredito que um bom jogo exige que se coloque algo em risco, isso deixa tudo mais emocionante. Que tu acha de apostarmos? Quem sabe, aquilo que tu tens de mais valioso?

– Que seja! Então joguemos às deveras. Se eu te vencer, tu devolves a saúde do meu filho. Se eu perder, então podes pegar tudo o que tenho. Todo meu dinheiro, minhas estâncias, tudo. Não me importo. Sem meu filho, nada disso me traz sentido.

– Tolo, por que insistes em te comportar como um? Não quero terras, nem ouro, nem nada disso. Não me importam as riquezas vãs da tua raça, senão, quando produzem os meus tira gostos. A riqueza só me interessa quando eu posso tirar dela o gosto da avareza. Da cólera. Da inveja. O gosto da tristeza. A riqueza não me importa, não. Não quero nada que seja teu nesse mundo.

– Então, o que tu quer de mim?

– A única coisa que realmente te pertence. Tua alma.

– Minha alma?

– Sim. Essa coisinha invisível que fica escondida aí e que não usas para nada. A tua alma é uma besteira, coisa boba que os padres adoram usar para imputar o medo nos covardes. Ora, uma alma por outra. Afinal, se o Theodoro morrer, do que te importaria ter ou não uma? Você já viu ela? A sua alma? Aposto que não. Almas são bobagens. E você terá a chance de usar a sua para poder salvar o pequeno Théo. Que tal dar uma utilidade para a sua alma, usando ela numa emocionante partida de truco. Que me diz?

– Que seja, então. Mas eu só aceito fazer essa aposta se eu jogar com o meu baralho, não com estas cartas que tu trouxe. Só jogo se for com o meu baralho. – Pedro disse com firmeza, arrematando uma frase final ao demônio:  –  E o vencedor será quem ganhar numa melhor de três partidas. Concorda?

– Sim, eu concordo. Disse o Diabo.

Sentados na mesa do rancho de pau-à-pique, exatamente às 3:33, Pedro e o Diabo iniciaram o jogo. Do chão, o demônio catou 17 pedacinhos de madeira, eles seriam os tentos. A primeira partida foi vencida pelo Diabo. O jogo chegou empatado em oito a oito e na última rodada, o Diabo cantou uma flor. Na melhor de três, Pedro tinha perdido a primeira. O Diabo pegou o baralho para iniciar a segunda partida, mas foi interrompido por Pedro.

– Espere. Desta vez, deixe que eu começo dando as cartas. – Pedro pegou o baralho, jogou as cartas de um lado para o outro, trocou de mãos, jogou cartas do meio para cima, de baixo para o meio e colocou o maço de cartas na frente do demônio. Ele não cortou, apenas bateu em cima do monte. Pedro retirou a primeira carta e colocou embaixo e começou a distribuir por cima do maço.

Logo na primeira rodada da segunda partida, mal Pedro tinha terminado de distribuir as cartas e o Diabo cantou a falta envido. Pedro, que estava colocando o baralho ao lado do demônio, para que ele desse as cartas na próxima rodada, não escondeu a sua surpresa. 

– Falta envido! Vamos, aceite logo. Vamos salvar logo o teu filho, Pedro. Falta envido!

– Quero! – Pedro aceitou a falta envido, sem sequer olhar as próprias cartas. O Diabo sorriu e disse: “Eu tenho 30 pontos”. Pedro pegou suas cartas, que ainda estavam repousadas sobre a madeira da velha mesa, sem demonstrar nenhuma expressão. Separou-as na mão direita. Depois, baixou um seis e um sete de espadas na mesa. “E eu tenho 33”. O demônio, enfurecido, bateu com a mão na mesa. As luzes que iluminavam o rancho se apagaram por um fração de segundos e depois voltaram a se acender.

  – Agora é “la negra”! – Sorridente, afirmou o Diabo. – Mas desta vez, sou eu que começo dando as cartas! – Definiu com a voz em falsete. Na parede, por vezes, Pedro via a sombra do demônio que deixava transparecer o contorno perfeito de duas asas. 

O Diabo sequer embaralhou, apenas colocou as cartas na mesa e pediu para Pedro cortar. O sobrinho da Diamantina cortou o baralho bem no meio. Enquanto as cartas eram distribuídas, Pedro teve a impressão de ouvir gemidos e um som metálico vindo do lado de fora do rancho, como se alguém estivesse com dor, como se quando andasse, estivesse arrastando uma corrente. Logo na primeira rodada, Pedro gritou “Truco!” e cantou uma flor. Jogou na mesa um ás, um sete e um seis, todos do mesmo naipe: espadas. O Diabo, não escondia o incômodo. A temperatura dentro do rancho caiu rapidamente e o jogo prosseguiu. 

Os dois oponentes chegaram na última rodada da última partida empatados em oito a oito. O Diabo embaralhou o maço e Pedro cortou. Os dois pegaram as cartas e ficaram se olhando. O Diabo ficou quieto por um instante. Depois, observou Pedro, que aparentava uma calma amedrontadora. Então, voltou-se para as próprias cartas e retirou delas um güeime de copas. Jogou na mesa, permanecendo em silêncio.

– E os pontos do envido, demônio? –  Perguntou Pedro em voz calma.

– Ora, eu estou esperando que você diga a falta envido. – Respondeu o Diabo, mas agora, com um olhar de raiva por ter sido chamado novamente de “demônio”.

– Eu quero! – E pela primeira vez no jogo, Pedro esboçou um sorriso.

Do outro lado da mesa, porém, olhando com avidez para Pedro, o Diabo deu uma gargalhada. Seus olhos brilhavam. Num movimento só, ele largou as cartas sobre a madeira envelhecida. Eram um seis e um sete de bastos. 

– Que me diz? É bom para ti os meus “Trinta e três!” – O demônio falou com a voz em tom acintoso. – Veja, Pedro. Espero que saibas contar. Olhe: Trinta e três! Humano ridículo! Pensou que poderia me vencer? Realmente, você chegou a acreditar que poderia me ganhar no truco? Você é um tolo. Vocês humanos são tolos, vocês têm o dom da tolice.

Nisso, Pedro se apoiou nos cotovelos, enquanto segurava as suas cartas. De repente, ele largando na borda da mesa empoeirada, um ás de bastos, um sete de espadas e um seis de espadas. 

– Do mesmo jeito que tu. Eu também tenho trinta e três. E é bom pra ti? – Por alguns segundos o Diabo permaneceu em silêncio, olhando para as cartas na mesa. 

– Mas Pedro, como assim, “bom para mim”? Nós empatamos, você tem trinta e três e eu também. Devemos jogar mais uma rodada.

– Não te faz de louco, Diabo! Eu te ganhei com trinta e três de mão, chambão! – Pedro estava eufórico, talvez, como nunca esteve ao término de uma partida de truco. – O demônio, tinha no rosto uma expressão de espanto. Sim, ele estava espantado com o fato de ter perdido.

– Vamos demônio! Vamos, pague-me o que tu prometeu. Devolva a saúde do meu filho. Eu te ganhei, demônio! Trinta e três de mão! Chambão! – Pedro não parava de afrontar o Diabo.

Nisso, a temperatura dentro da velha casa caiu ainda mais. A respiração de Pedro era uma nuvem de vapor pairando no ar. Do lado de fora do rancho, começaram novamente os gritos de dor: o som de mulheres em sofrimento, misturado com o choro de crianças e o latidos de cães. De repente, um cheiro de enxofre tomou conta da sala e as luzes das velas se apagaram. 

Perto da porta do rancho, o cavalo de Pedro, agitado, ficou relinchando e fazendo estardalhaço com as patas no chão. O som da mesa sendo jogada contra uma das paredes. Os clarões dos disparos da arma de Pedro, como relâmpagos, iluminavam a escuridão do rancho. A cada disparo a imagem do demônio se transformava, o que antes eram formas sombrias na parede, agora eram visíveis, as grandes asas. Até que o gatilho da arma de Pedro bateu seco. E em alguns segundos, tudo ficou em silêncio.

No dia seguinte, mal o sol havia nascido e o pequeno Theodoro se levantou da cama. O menino foi até o quarto dos pais, com um grande sorriso, acordou sua mãe. Ele não tinha febre, nem tosse, o filho de Pedro estava bem, estava curado. Milagrosamente, curado. 

A mulher, radiante em felicidade, levantou-se e pegou Theodoro no colo, abraçou-o e o beijou com todo o amor que lhe cabia. Então, ela procurou pelo marido, mas a cama estava vazia. “Pedro! Pedro!”, ela chamou em alegria incontida, mas em vão. 

Com o menino pela mão, a mulher andou pela casa e nada, nenhum sinal de seu esposo. Foi ao galpão, mas ninguém havia visto Pedro. O capataz da estância disse que o Patrão tinha saído no dia anterior, falou que iria até o Quintino. Assim, os homens se organizaram em trios e saíram pelos campos da estância, na ânsia de buscar pelo patrão. Uns foram na direção da cidade, outros foram até o bolicho do Quintino, outro grupo foi na direção do rio.

Antes do meio-dia, bateu na porta um dos peões, tinha o semblante triste. Quando viu a patroa na porta, deu um passo para trás e retirou o chapéu. Ele havia encontrado. Pedro foi achado morto. Seu corpo estava dentro do velho rancho. A porta da casa estava trancada, tiveram de arrombar com muita dificuldade, três homens em revezamento. O cavalo de Pedro também estava morto, mas do lado de fora do casebre, tinha o corpo todo rígido e os olhos aterrorizados, arregalados, padeceu caído perto da porta. Dentro da casa, os bancos foram revirados. Nas paredes, as marcas dos tiros. No chão, as cartas de baralho esparramadas para todo lado. A mesa de madeira estava quebrada, partida ao meio, como se tivesse sido arremessada contra o piso. Ao lado da mesa, o corpo de Pedro. Estava pálido, como se o todo o seu sangue tivesse sido sugado, como se as cores do cabelo tivessem ido embora com a própria vida. Numa das mãos tinha o revólver, na outra, um rosário.

Pelo jeito, o truco não era o “jogo do Diabo”, como afirmou alguns anos antes a tia Diamantina. Não, não era. O truco era o jogo de Pedro Cavalera, tanto que nem o demônio lhe venceu. No entanto, uma coisa era certa: o Diabo, ele não sabia perder.

Roger Baigorra Machado é formado em História e tem Mestrado em Integração Latino-Americana, ambos pela UFSM. Foi Coordenador Administrativo da Universidade Federal do Pampa por dois mandatos, de 2010 a 2017. Atualmente trabalha com Ações Afirmativas e políticas de inclusão e acessibilidade no Campus da Unipampa em Uruguaiana.

 

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